sexta-feira, fevereiro 06, 2009

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Tenho recebido as tuas cartas todas, as que enviaste para Sines, e as de Lisboa. Só que os dias têm decorrido demasiado cinzentos para arranjar forças e responder-te. Aproveito um serão para o fazer. Não porque as coisas se iluminaram mais do que ontem. Não. Tudo continua, neste momento, na minha vida, como nos últimos tempos. Um terror! – uma merda! – e não me apetece nada. Absolutamente nada. Dá-me a impressão que tenho andado entretido a falhar coisas, não sei. Nada funciona comigo e parece que a alma e o corpo estão em suspenso, entorpecidos até à medula. Que fazer? Não sei!
Sinto falta de tudo, de afectos, de ternura, de tudo, de amor, de paixão, de gestos que me indiquem que estou aqui, que estou vivo e, apesar de tudo, vale a pena ir celebrando a vida. Dentro do possível. Dentro do que me parece justo.
Tirando toda essa ansiedade, toda esta angústia – as coisas vão avançando tão lamentavelmente que até parece terem-me rezado uma praga. E se calhar foi o que fizeram. As pessoas são ruins. Cada vez tenho menos amigos, contam-se pelos dedos duma mão e, bem vistas as coisas, ainda sobram dedos. Enfim, sinto-me mais ou menos à deriva, sem saber muito bem como continuar, como me acalmar. Não te esqueci. O meu silêncio é doutra ordem mas não o do esquecimento. Vai escrevendo. É bom receber as tuas cartas, lê-las, e saber que alguém nos escreve coisas assim.


Retirado do livro em destaque no post anterior.

1 comentário:

Rute Oliveira disse...

Então e o Delfim???

Estás por cá?