quinta-feira, abril 23, 2026

...

 De tudo o que existe, nada é tão estranho como

as relações humanas, com as suas mudanças

e a sua extraordinária irracionalidade

                                VIRGINIA WOOLF

sábado, abril 04, 2026

Branco mais branco não há...

 “Do I contradict myself?

Very well then I contradict myself,
(I am large, I contain multitudes.)”

in Song of Myself, do poeta Walt Whitman

sexta-feira, março 20, 2026

Privatizem A Puta Que Os Pariu...

 Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.

José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário III

perdidos na camada de ozono...

 Terrível acto de sofrimento, só digo merda, enfim, foram as últimas palavras do grande palhaço. Hahhahhah- estou a morrer, e ninguém me ajuda. É o fim. Em busca de melhores dias, parto em direcção ao Algarve. Mais uma viagem, mais uma corrida. Quem me dera poder ler a tua mente, já sei o teu número da sorte. Está tudo bem, podes dormir em paz. Vou virar tudo de pernas para o ar. Se ficar parado um segundo, rebento, não consigo controlar isto. Preciso de resolver umas coisas, não devo abusar da pouca sorte. Era uma vez uma história já velha, de terror e ódio. A minha memória parou no tempo, o que aqui se passou merece ser contado. Jesus está velho e cansado, ninguém lhe liga nenhuma, quer salvar o mundo e os homens, mas nada parece resultar. O homem acredita que pode viver todo o tempo do mundo, errando, com uma estupidez infinita. Sempre as mesmas perguntas, há respostas para tudo - dizem. É muito tempo, já se passou cento e trinta anos. Fiquei a pensar no que poderia ter feito neste tempo todo, nunca tive disponibilidade de tempo. Vivi deslumbrado, na altura eu tinha um fascínio pela vida. Sempre à espera de alguma coisa. Eu queria mais. As prioridades iniciais tinham ficado para segundo plano. Eu tinha um contrato. O meu lado católico, tornou-me numa pessoa com a capacidade de perdoar mesmo a quem não merece, chama-se a isso bondade. Pela tua saúde. Queremos controlar o destino, esquece tudo o que sabes, o insucesso. O essencial da história de uma pessoa passa sempre ao lado, aquilo que não se disse. De repente há intrusos na minha vida, que percebem qual é o espírito. Há alguma coisa que faz a diferença, as minhas qualidades não são tão comuns quanto isso. A verdadeira história nunca poderá ser contada. É importante saber alguns episódios. O que aconteceu tem simplesmente com o facto de ter pecado. Preciso de aprender o “pai nosso” o mais rapidamente possível. Vai ser um momento decisivo, para furar a barreira da ignorância. É a minha marca pessoal perder tempo com projectos que nunca vão para a frente.

quinta-feira, março 19, 2026

...

 [aniversário]


Acho que número é coisa ruim pra gente

contar vida

Acho até que a gente deveria comemorar outra

coisa nos aniversários.

Talvez a volta ao redor do sol.

Que é a mesma coisa mas não é.

Porque número é um negócio que serve pra

pesar batatas.

Número é negócio que serve para contar

catálogos

Número é negócio estreito demais pra caber

vida.

Imagina que a gente comemora mais uma

volta ao redor do sol. e que aventura imensa é

estar aqui orbitando juntos mais um pouco.

Imagina se a gente passar a contar não os anos

mas as histórias.

Talvez a gente perdesse o medo de envelhecer

e quisesse ver passar os ciclos histórias sem a

pressa da meta número.

A gente espreme a vida em números.

Mas a vida escapa sempre.

E vence.


Liana Ferraz, Sede me Beber Inteira, Infinito Particular, fevereiro de 2025, p. 201