sexta-feira, março 20, 2026

Privatizem A Puta Que Os Pariu...

 Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.

José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário III

perdidos na camada de ozono...

 Terrível acto de sofrimento, só digo merda, enfim, foram as últimas palavras do grande palhaço. Hahhahhah- estou a morrer, e ninguém me ajuda. É o fim. Em busca de melhores dias, parto em direcção ao Algarve. Mais uma viagem, mais uma corrida. Quem me dera poder ler a tua mente, já sei o teu número da sorte. Está tudo bem, podes dormir em paz. Vou virar tudo de pernas para o ar. Se ficar parado um segundo, rebento, não consigo controlar isto. Preciso de resolver umas coisas, não devo abusar da pouca sorte. Era uma vez uma história já velha, de terror e ódio. A minha memória parou no tempo, o que aqui se passou merece ser contado. Jesus está velho e cansado, ninguém lhe liga nenhuma, quer salvar o mundo e os homens, mas nada parece resultar. O homem acredita que pode viver todo o tempo do mundo, errando, com uma estupidez infinita. Sempre as mesmas perguntas, há respostas para tudo - dizem. É muito tempo, já se passou cento e trinta anos. Fiquei a pensar no que poderia ter feito neste tempo todo, nunca tive disponibilidade de tempo. Vivi deslumbrado, na altura eu tinha um fascínio pela vida. Sempre à espera de alguma coisa. Eu queria mais. As prioridades iniciais tinham ficado para segundo plano. Eu tinha um contrato. O meu lado católico, tornou-me numa pessoa com a capacidade de perdoar mesmo a quem não merece, chama-se a isso bondade. Pela tua saúde. Queremos controlar o destino, esquece tudo o que sabes, o insucesso. O essencial da história de uma pessoa passa sempre ao lado, aquilo que não se disse. De repente há intrusos na minha vida, que percebem qual é o espírito. Há alguma coisa que faz a diferença, as minhas qualidades não são tão comuns quanto isso. A verdadeira história nunca poderá ser contada. É importante saber alguns episódios. O que aconteceu tem simplesmente com o facto de ter pecado. Preciso de aprender o “pai nosso” o mais rapidamente possível. Vai ser um momento decisivo, para furar a barreira da ignorância. É a minha marca pessoal perder tempo com projectos que nunca vão para a frente.

quinta-feira, março 19, 2026

...

 [aniversário]


Acho que número é coisa ruim pra gente

contar vida

Acho até que a gente deveria comemorar outra

coisa nos aniversários.

Talvez a volta ao redor do sol.

Que é a mesma coisa mas não é.

Porque número é um negócio que serve pra

pesar batatas.

Número é negócio que serve para contar

catálogos

Número é negócio estreito demais pra caber

vida.

Imagina que a gente comemora mais uma

volta ao redor do sol. e que aventura imensa é

estar aqui orbitando juntos mais um pouco.

Imagina se a gente passar a contar não os anos

mas as histórias.

Talvez a gente perdesse o medo de envelhecer

e quisesse ver passar os ciclos histórias sem a

pressa da meta número.

A gente espreme a vida em números.

Mas a vida escapa sempre.

E vence.


Liana Ferraz, Sede me Beber Inteira, Infinito Particular, fevereiro de 2025, p. 201

sábado, março 14, 2026

Hamnet...


                                              
                                

                                            To be or not to be, that it's the question.

Longe do mar...


 

sábado, outubro 11, 2025

Batalha Atrás de Batalha...


 



Em Batalha Atrás de Batalha (2025), uma adaptação livre do romance Vineland (1990), de Thomas Pynchon, dirigida por Paul Thomas Anderson, o ex-ativista radical Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) vive uma existência precária na Califórnia contemporânea, assombrado pelos fantasmas de ações extremas cometidas há 16 anos durante o auge da contracultura dos anos 2000. Quando sua filha adolescente, Willa (Chase Infiniti), desaparece misteriosamente, Bob mergulha em uma rede de conspirações paranoicas envolvendo sociedades secretas nativistas, agentes federais corruptos e ecos de rebeliões passadas. Acompanhado por aliados improváveis, como o enigmático Lockjaw (Benicio Del Toro), ele enfrenta um sistema opressivo que devora idealistas, misturando comédia absurda, ação eletrizante e sátira afiada sobre o declínio do espírito revolucionário na era da vigilância e do autoritarismo. O filme transforma a digressive narrativa de Pynchon em um thriller propulsivo, questionando se as batalhas do passado podem ser vencidas no presente – ou se elas só se multiplicam.

sexta-feira, agosto 22, 2025