quarta-feira, agosto 14, 2024

terça-feira, junho 13, 2023

Ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer.

 

Quem foi que disse que eu escrevo para as elites?
Quem foi que disse que eu escrevo para o basfond?
Eu escrevo para a Maria de Todo o Dia.
Eu escrevo para o João Cara de Pão.
Para você, que está com este jornal na mão…
E de súbito descobre que a única novidade é a poesia,
O resto não passa de crônica policialsocialpolítica.
E os jornais sempre proclamam que “a situação é crítica”!
Mas eu escrevo é para o João e a Maria,
Que quase sempre estão em situação crítica!
E por isso as minhas palavras são cotidianas como o
pão nosso de cada dia
E a minha poesia é natural e simples como a água bebida
na concha da mão.

Mario Quintana, Poesia Completa

...

 Tenho medo de confrontar-me com a pessoa que fui

quarta-feira, junho 08, 2022

About me...

Um bicho do mato

com contradições

por vezes um cabeça no ar

mas confiável

Sou Lúcido...

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele; E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha (Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro: Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, E romantismo, sim, mas devagar...). Sinto urna simpatia por essa gente toda, Sobretudo quando não merece simpatia. Sim, eu sou também vadio e pedinte, E sou-o também por minha culpa. Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte: É estar ao lado da escala social, É não ser adaptável às normas da vida, Às normas reais ou sentimentais da vida — Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta, Não ser pobre a valer, operário explorado, Não ser doente de uma doença incurável, Não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas, E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor. Não: tudo menos ter razão! Tudo menos importar-me com a humanidade! Tudo menos ceder ao humanitarismo! De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela? Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou, Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente: É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio, É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte. Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki. Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir. E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece. Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, E estou-me rebolando numa grande caridade por mim. Coitado do Álvaro de Campos! Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações! Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia! Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos, Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita, Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão. Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa! Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo! E, sim, coitado dele! Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam, Que são pedintes e pedem, Porque a alma humana é um abismo. Eu é que sei. Coitado dele! Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma! Mas até nem parvo sou! Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais. Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido. Não me queiram converter a convicção: sou lúcido. Já disse: Sou lúcido. Nada de estéticas com coração: Sou lúcido. Merda! Sou lúcido. E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece. Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, E estou-me rebolando numa grande caridade por mim. Coitado do Álvaro de Campos! Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações! Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia! Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos, Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita, Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão. Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa! Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo! E, sim, coitado dele! Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam, Que são pedintes e pedem, Porque a alma humana é um abismo. Eu é que sei. Coitado dele! Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma! Mas até nem parvo sou! Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais. Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido. Não me queiram converter a convicção: sou lúcido. Já disse: Sou lúcido. Nada de estéticas com coração: Sou lúcido. Merda! Sou lúcido.

Álvaro de Campos

segunda-feira, fevereiro 07, 2022

Persistência...

Nothing in this world can take the place of persistence. Talent will not: nothing is more common than unsuccessful men with talent. Genius will not; unrewarded genius is almost a proverb. Education will not: the world is full of educated derelicts. Persistence and determination alone are omnipotent.

Calvin Coolidge

segunda-feira, janeiro 31, 2022

Hiparquia, a fora da lei...

Suposto Crates e Hiparquia em uma pintura romana do século I (Jardim da Villa Farnesina, Roma, Museo delle Terme)

Hiparquia é considerada uma mulher libertina e rebelde. Foi discípula de Crates, com quem se casou. Ele participou das reuniões dos filósofos do século IV aC. C., onde expôs suas ideias sobre os diferentes temas e se envolveu nas discussões do grupo de cínicos. Certa ocasião, durante um banquete na casa de Lisímaco, Hiparquia confrontou Teodoro, o ateu, por não concordar que uma mulher se dedicasse à filosofia, muito menos frequentasse suas reuniões, esquecendo-se de seus deveres domésticos. Ela respondeu, ironicamente, que havia errado em se dedicar aos estudos em vez de se dedicar à tecelagem. Teodoro, aborrecido, rasgou seu vestido, mas ela não se aborreceu e lhe respondeu com uma pergunta que denota seu caráter e seu compromisso com a filosofia. Teodoro questionou: "Foi você que deixou o pano e a lançadeira?" Ele respondeu: "Eu sou, você acha que por acaso, eu procurei pouco para mim ao dar às ciências o tempo que eu tinha que gastar com tecidos?" Coerente com a filosofia cínica, Hiparquia renunciou às suas propriedades, à sua vida confortável e levou uma vida ao estilo dos filósofos caninos, andando em trapos ao lado de Crates. Uma das condições que Crates impôs a Hiparquia foi que ele usasse as mesmas vestes. Para ela isso não era problema: pegava trapos sujos e se vestia assim. Ele também não tinha escrúpulos em fazer sexo em qualquer lugar, mesmo na rua. Ele se comportava como uma pessoa generosa e piedosa, que ajudava os necessitados. Com sua morte, os filósofos cínicos declararam um festival anual em sua homenagem em Atenas, no Golden Gate, chamado Kynogamia ou o dia da incorporação das mulheres ao mundo da filosofia cínica.

quinta-feira, dezembro 30, 2021

sábado, novembro 20, 2021

dura lex, sed lex...

“Whenever you find yourself on the side of the majority, it is time to pause and reflect.” ― Mark Twain

quinta-feira, junho 17, 2021

domingo, maio 16, 2021

O algoritmo perfeito...

int main(void) { 

int n1,resto; 

 printf ("\nDigite um numero:"); 

scanf ("%d", &n1); 

 resto = n1 % 2; 

 printf ("O resto da divisao e %d",resto);

 if (resto == 0) printf("\nO numero %d e par. \n",n1); 

else 

printf("\nO numero %d e impar. \n",n1); 

getch(); 

 return(0); 

}

Alma Algarvia...

terça-feira, dezembro 29, 2020

samuel beckett / worstward ho

Em diante. Dizer em diante. Ser dito em diante. Dalgum modo em diante. Até de modo nenhum em diante. Dito de modo nenhum em diante.

Dizer por ser dito. Desdito. De ora em diante dizer por ser desdito.

Dizer um corpo. Onde nenhum. Mente nenhuma. Onde nenhuma. Ao menos isso. Um lugar. Onde nenhum. Para o corpo. Estar lá dentro. Morrer-se lá dentro. E sair. E voltar lá para dentro. Não. Sair nenhum. Voltar nenhum. Só entrar. Ficar lá dentro. Em diante lá dentro. Parado.

Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor. 
 
 
samuel beckett
últimos trabalhos de samuel beckett
tradução de miguel esteves cardoso
o independente / assírio & alvim
1996

sábado, julho 18, 2020

Rodrigo Leão - Avis 2020

Para ouvir e sentir, um trabalho de suprema mestria em que Rodrigo Leão atinge a maturidade absoluta. Gosto, gosto muito, um prazer de sons muito agradável, para mim um dos melhores trabalhos de Rodrigo Leão.
O confinamento deu um bom fruto, surpreendentemente delicioso este álbum, um tributo à vasta planície alentejana que serve de inspiração a esta maravilhosa obra musical.

segunda-feira, maio 04, 2020

Dia da mãe...

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor. 

Herberto Helder, in 'Excerto do poema «Fonte», publicado em A Colher na Boca, 1961'

sábado, março 21, 2020

A instalação do medo...

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
       (assim assim)
escriturários
       (muitos)
intelectuais
       (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Viciado'

Águas de março...

Do fundo do baú...


tesourinhos preciosos no arquivo da rtp, programa Palavras Vivas com Mário Viegas

mais info aqui...[arquivo da rtp]

sexta-feira, março 20, 2020

de Tóquio a Nova Iorque...

Museus a visitar nesta vida ou noutra vida sem vírus...

em Tóquio...take a look...[Mori Building Digital Art Museum]

em Nova Iorque...[New Rhizome Museum]

De onde chegam estas palavras?

De onde me chegam estas palavras?

Nunca houve palavras para gritar a tua ausência

Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.

E não havia um nome para a tua ausência.

Mas tu vieste.

Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?

Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.

Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.

Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.

Joaquim Pessoa

Tu és mortal meu Deus...

Noite, vem noite sobre mim sobre nósdá o repouso absoluto de tudotraz peixes e abismos para nos abismarmostraz o sono traz a mortee vem noite por detrás de nós e sobre nóse escreve com o teu negroa morte que há em nós.Livra-nos e perdoa-nos tudoredime-nos os pecadose enforca os nossos rostos em teu nome

António Gancho

Parasitas...

mais info em...[Cinecartaz]

Era uma vez em Hollywood...



mais info em...[Cinecartaz]

Antígona...



Fotos: Filipe Ferreira

mais em info em... [teatro nacional dona maria II]

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Uma mulher não é de ferro...

O novo livro de Rita Arame foi hoje lançado na Livraria Batata, e é já um best-seller no ensaio literário a nível nacional. A editora do livro, as Edições Couve Roxa, conta esgotar a 1ª edição. A autora criadora dos “universos coerentes” presenteia-nos com este dejeto literário. Uma história vivida nas avenidas novas, uma narrativa extremamente densa, sem ponta por onde se lhe pegue, uma conceptual ideia na estrutura com afinidades, mas que não passa de um produto menor, como já anteriormente foi referido. Este livro dá pano para mangas, o tema, esse delicioso e profiláctico mel, aqui produzido, vinte e quatro horas de dúvidas existenciais e a renovação da vontade de não voltar a ler livros com este. A revolta de um sentimento profundo, a violência doméstica, o quotidiano dessas abelhas que são as mulheres. Apesar de tudo, revela a história de uma mulher que tinha apenas seis meses quando os pais se separaram. Após uma infância marcada por uma mãe ausente, no início da sua maturidade descobre inesperadamente um pai de olhar arrebatado, exclusivamente centrado nela. A vida é dura.

quarta-feira, fevereiro 12, 2020