sexta-feira, julho 24, 2026

Rei Lear...


  • Autoria: William Shakespeare (tradução de Álvaro Cunhal).
  • Encenação: António Pires
  • Cenografia: João Mendes Ribeiro
  • Figurinos: Luísa Pacheco
  • Desenho de Luz: Rui Seabra
  • Desenho de Som: Paulo Abelho
  • Música: Daniel Bernardes
  • Atores: 
  • Adriano Luz (no papel principal de Rei Lear)
  • André Ramos
  • Carolina Campanela
  • Cláudio da Silva
  • Crista Alfaiate
  • Dinarte Branco
  • Dinis Gomes
  • Eurico Lopes
  • Francisco Vistas
  • Gonçalo Norton
  • Hugo Mestre Amaro
  • Jaime Baeta
  • Marcello Urgeghe
  • Rodrigo Machado
  • Sofia Marques 
  • domingo, julho 19, 2026

    O melhor de Adília Lopes...

     Só gosto das pessoas boas

    quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy

    sei lá o quê

    se não são boas pessoas

    não prestam

    A Odisseia...







                                                 Filme de Christopher Nolan

    A Forma Justa...

    Sei que seria possível construir o mundo justo 
    As cidades poderiam ser claras e lavadas 
    Pelo canto dos espaços e das fontes 
    O céu o mar e a terra estão prontos 
    A saciar a nossa fome do terrestre 
    A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia 
    Cada dia a cada um a liberdade e o reino — Na concha na flor no homem e no fruto
     Se nada adoecer a própria forma é justa 
    E no todo se integra como palavra em verso 
    Sei que seria possível construir a forma justa 
    De uma cidade humana que fosse Fiel à perfeição do universo Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

    Sophia de Mello Breyner Andresen

    domingo, maio 17, 2026

    Minha Cabeça estremece, de Herberto Helder

    Falo, penso.

    Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
    É sempre outra coisa, uma
    só coisa coberta de nomes.
    E a morte passa de boca em boca
    com a leve saliva,
    com o terror que há sempre
    no fundo informulado de uma vida.

    Sei que os campos imaginam as suas
    próprias rosas.
    As pessoas imaginam os seus próprios campos
    de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
    como se morresse;
    outras, como se agora somente
    eu pudesse acordar.

    Por vezes tudo se ilumina.
    Por vezes canta e sangra.
    Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
    Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
    Eu digo: roda ao longe o outono,
    e o que é o outono?
    As pálpebras batem contra o grande dia masculino
    do pensamento.

    – Era uma casa – como direi? – absoluta.

    Eu jogo, eu juro.
    Era uma casinfância.
    Sei como era uma casa louca.
    Eu metias as mãos na água: adormecia,
    relembrava.
    Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

    Apalpo agora o girar das brutais,
    líricas rodas da vida.
    Há no esquecimento, ou na lembrança
    total das coisas,
    uma rosa como uma alta cabeça,
    um peixe como um movimento
    rápido e severo.
    Uma rosapeixe dentro da minha ideia
    desvairada.
    Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
    – Porque o amor das coisas no seu
    tempo futuro
    é terrivelmente profundo, é suave,
    devastador.

    As cadeiras ardiam nos lugares.
    Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
    como seres pasmados.
    Às vezes riam alto. Teciam-se
    em seu escuro terrífico.
    A menstruação sonhava podre dentro delas,
    à boca da noite.
    Cantava muito baixo.
    Parecia fluir.
    Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
    Chovia nas noites terrestres.

    – Era húmido, destilado, inspirado.
    Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
    Havia uma essência de oficina.
    Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
    com as suas maçãs centrípetas
    e as uvas pendidas sobre a maturidade.
    Havia a magnólia quente de um gato.
    Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
    que saía da mão para o rosto
    da mãe sombriamente pura.
    Ah, mãe louca à volta, sentadamente
    completa.
    As mãos tocavam por cima do ardor
    a carne como um pedaço extasiado.

    Era uma casabsoluta – como
    direi? – um
    sentimento onde algumas pessoas morreriam.
    Demência para sorrir elevadamente.
    Ter amoras, folhas verdes, espinhos
    com pequena treva por todos os cantos.
    Nome no espírito como uma rosapeixe.

    – Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
    agora nas palavras.
    Prefiro cantar nas varandas interiores.
    Porque havia escadas e mulheres que paravam
    minadas de inteligência.
    O corpo sem rosáceas, a linguagem
    para amar e ruminar.
    O leite cantante.

    Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
    Trago para cima essa imagem de água interna.
    – Caneta do poema dissolvida no sentido
    primacial do poema.

    Ou o poema subindo pela caneta,
    atravessando seu próprio impulso,
    poema regressando.
    Tudo se levanta como um cravo,
    uma faca levantada.
    Tudo morre o seu nome noutro nome.

    Ah, pensar com delicadeza,
    imaginar com ferocidade.
    Porque eu sou uma vida com furibunda
    melancolia,
    com furibunda concepção. Com
    alguma ironia furibunda.

    Sou uma devastação inteligente.
    Com malmequeres fabulosos.
    Ouro por cima.
    A madrugada ou a noite triste tocadas
    em trompete. Sou
    alguma coisa audível, sensível.
    Um movimento.
    Cadeira congeminando-se na bacia,
    feita o sentar-se.
    Ou flores bebendo a jarra.
    O silêncio estrutural das flores.
    E a mesa por baixo.
    A sonhar.

    sexta-feira, maio 15, 2026

    ...

     “As pessoas têm medo das mudanças.

       Eu tenho medo que as coisas nunca mudem.”

      Chico Buarque

    quinta-feira, abril 23, 2026

    ...

     De tudo o que existe, nada é tão estranho como

    as relações humanas, com as suas mudanças

    e a sua extraordinária irracionalidade

                                    VIRGINIA WOOLF

    sábado, abril 04, 2026

    Branco mais branco não há...

     “Do I contradict myself?

    Very well then I contradict myself,
    (I am large, I contain multitudes.)”

    in Song of Myself, do poeta Walt Whitman

    sexta-feira, março 20, 2026

    Privatizem A Puta Que Os Pariu...

     Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.

    José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário III

    perdidos na camada de ozono...

     Terrível acto de sofrimento, só digo merda, enfim, foram as últimas palavras do grande palhaço. Hahhahhah- estou a morrer, e ninguém me ajuda. É o fim. Em busca de melhores dias, parto em direcção ao Algarve. Mais uma viagem, mais uma corrida. Quem me dera poder ler a tua mente, já sei o teu número da sorte. Está tudo bem, podes dormir em paz. Vou virar tudo de pernas para o ar. Se ficar parado um segundo, rebento, não consigo controlar isto. Preciso de resolver umas coisas, não devo abusar da pouca sorte. Era uma vez uma história já velha, de terror e ódio. A minha memória parou no tempo, o que aqui se passou merece ser contado. Jesus está velho e cansado, ninguém lhe liga nenhuma, quer salvar o mundo e os homens, mas nada parece resultar. O homem acredita que pode viver todo o tempo do mundo, errando, com uma estupidez infinita. Sempre as mesmas perguntas, há respostas para tudo - dizem. É muito tempo, já se passou cento e trinta anos. Fiquei a pensar no que poderia ter feito neste tempo todo, nunca tive disponibilidade de tempo. Vivi deslumbrado, na altura eu tinha um fascínio pela vida. Sempre à espera de alguma coisa. Eu queria mais. As prioridades iniciais tinham ficado para segundo plano. Eu tinha um contrato. O meu lado católico, tornou-me numa pessoa com a capacidade de perdoar mesmo a quem não merece, chama-se a isso bondade. Pela tua saúde. Queremos controlar o destino, esquece tudo o que sabes, o insucesso. O essencial da história de uma pessoa passa sempre ao lado, aquilo que não se disse. De repente há intrusos na minha vida, que percebem qual é o espírito. Há alguma coisa que faz a diferença, as minhas qualidades não são tão comuns quanto isso. A verdadeira história nunca poderá ser contada. É importante saber alguns episódios. O que aconteceu tem simplesmente com o facto de ter pecado. Preciso de aprender o “pai nosso” o mais rapidamente possível. Vai ser um momento decisivo, para furar a barreira da ignorância. É a minha marca pessoal perder tempo com projectos que nunca vão para a frente.

    quinta-feira, março 19, 2026

    ...

     [aniversário]


    Acho que número é coisa ruim pra gente

    contar vida

    Acho até que a gente deveria comemorar outra

    coisa nos aniversários.

    Talvez a volta ao redor do sol.

    Que é a mesma coisa mas não é.

    Porque número é um negócio que serve pra

    pesar batatas.

    Número é negócio que serve para contar

    catálogos

    Número é negócio estreito demais pra caber

    vida.

    Imagina que a gente comemora mais uma

    volta ao redor do sol. e que aventura imensa é

    estar aqui orbitando juntos mais um pouco.

    Imagina se a gente passar a contar não os anos

    mas as histórias.

    Talvez a gente perdesse o medo de envelhecer

    e quisesse ver passar os ciclos histórias sem a

    pressa da meta número.

    A gente espreme a vida em números.

    Mas a vida escapa sempre.

    E vence.


    Liana Ferraz, Sede me Beber Inteira, Infinito Particular, fevereiro de 2025, p. 201