quinta-feira, março 26, 2026
sexta-feira, março 20, 2026
Privatizem A Puta Que Os Pariu...
Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.
José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário III
perdidos na camada de ozono...
Terrível acto de sofrimento, só digo merda, enfim, foram as últimas palavras do grande palhaço. Hahhahhah- estou a morrer, e ninguém me ajuda. É o fim. Em busca de melhores dias, parto em direcção ao Algarve. Mais uma viagem, mais uma corrida. Quem me dera poder ler a tua mente, já sei o teu número da sorte. Está tudo bem, podes dormir em paz. Vou virar tudo de pernas para o ar. Se ficar parado um segundo, rebento, não consigo controlar isto. Preciso de resolver umas coisas, não devo abusar da pouca sorte. Era uma vez uma história já velha, de terror e ódio. A minha memória parou no tempo, o que aqui se passou merece ser contado. Jesus está velho e cansado, ninguém lhe liga nenhuma, quer salvar o mundo e os homens, mas nada parece resultar. O homem acredita que pode viver todo o tempo do mundo, errando, com uma estupidez infinita. Sempre as mesmas perguntas, há respostas para tudo - dizem. É muito tempo, já se passou cento e trinta anos. Fiquei a pensar no que poderia ter feito neste tempo todo, nunca tive disponibilidade de tempo. Vivi deslumbrado, na altura eu tinha um fascínio pela vida. Sempre à espera de alguma coisa. Eu queria mais. As prioridades iniciais tinham ficado para segundo plano. Eu tinha um contrato. O meu lado católico, tornou-me numa pessoa com a capacidade de perdoar mesmo a quem não merece, chama-se a isso bondade. Pela tua saúde. Queremos controlar o destino, esquece tudo o que sabes, o insucesso. O essencial da história de uma pessoa passa sempre ao lado, aquilo que não se disse. De repente há intrusos na minha vida, que percebem qual é o espírito. Há alguma coisa que faz a diferença, as minhas qualidades não são tão comuns quanto isso. A verdadeira história nunca poderá ser contada. É importante saber alguns episódios. O que aconteceu tem simplesmente com o facto de ter pecado. Preciso de aprender o “pai nosso” o mais rapidamente possível. Vai ser um momento decisivo, para furar a barreira da ignorância. É a minha marca pessoal perder tempo com projectos que nunca vão para a frente.
quinta-feira, março 19, 2026
...
[aniversário]
Acho que número é coisa ruim pra gente
contar vida
Acho até que a gente deveria comemorar outra
coisa nos aniversários.
Talvez a volta ao redor do sol.
Que é a mesma coisa mas não é.
Porque número é um negócio que serve pra
pesar batatas.
Número é negócio que serve para contar
catálogos
Número é negócio estreito demais pra caber
vida.
Imagina que a gente comemora mais uma
volta ao redor do sol. e que aventura imensa é
estar aqui orbitando juntos mais um pouco.
Imagina se a gente passar a contar não os anos
mas as histórias.
Talvez a gente perdesse o medo de envelhecer
e quisesse ver passar os ciclos histórias sem a
pressa da meta número.
A gente espreme a vida em números.
Mas a vida escapa sempre.
E vence.
Liana Ferraz, Sede me Beber Inteira, Infinito Particular, fevereiro de 2025, p. 201
sábado, março 14, 2026
domingo, fevereiro 08, 2026
sexta-feira, janeiro 16, 2026
sábado, outubro 11, 2025
Batalha Atrás de Batalha...
sexta-feira, agosto 22, 2025
sexta-feira, agosto 15, 2025
quarta-feira, agosto 13, 2025
sábado, julho 19, 2025
segunda-feira, julho 07, 2025
domingo, junho 22, 2025
Pedro...
Hoje, catorze de novembro, é o dia dos anos do meu irmão Pedro, uma das pessoas que mais amei no mundo, o único de nós que saiu moreno, de cabelo preto, quase sempre calado. Nunca invejou ninguém: era livre. Nunca disse mal de ninguém: era livre. Nunca discutiu com ninguém: era livre. Fez sempre, desde criança, o que quis: era livre. Não lhe interessava o dinheiro, nem o sucesso, nem o aplauso dos outros. Não criticava fosse quem fosse. Não falava mal de ninguém . Misterioso, secreto, muito raramente mostrava o que sentia e, apesar do seu silêncio imperturbável, percebe-se que gostava de nós, sem palavras, sem pieguices,
quinta-feira, junho 19, 2025
"No silêncio das almas que se encontram, nasce a melodia que o mundo se esqueceu de cantar."
domingo, maio 11, 2025
Lisboa: Menina e Moça sempre a resistir...
O sol de Lisboa banha com tons dourados a fachada austera do Quartel do Carmo. Suas paredes, hoje silenciosas, guardam os ecos de um momento que transformou para sempre o destino de Portugal. Ali, no dia 25 de abril de 1974, convergiu a esperança de um povo cansado de opressão.
Pelas ruas estreitas que serpenteiam a colina, quase se pode ouvir o ruído distante dos tanques avançando, cravos vermelhos desabrochando nos canos das espingardas. O Quartel, fortaleza do regime, tornou-se paradoxalmente palco do seu fim. Marcelo Caetano, último representante de um sistema moribundo, ali se refugiou, ali se rendeu, enquanto uma revolução sem sangue florescia lá fora.
Não muito distante, outro edifício guarda histórias menos conhecidas, mas igualmente poderosas. O Museu do Aljube, antiga prisão política, ergue-se como testemunha silenciosa dos anos de chumbo. Suas celas, agora transformadas em espaços de memória, abrigaram sonhos, lágrimas e a determinação inquebrantável dos que ousaram discordar.
Nos corredores estreitos do Aljube, ressoa ainda o eco dos passos dos guardas, o tilintar das chaves, o murmúrio dos prisioneiros trocando esperanças em códigos sussurrados. Ali, a PIDE, polícia política do Estado Novo, exerceu seu poder através do medo e da tortura. Homens e mulheres foram interrogados até a exaustão, privados de sono, submetidos à infame "estátua" - tortura onde permaneciam de pé por dias.
Entre o Carmo e o Aljube, Lisboa traça uma geografia da resistência. Um mapa emocional onde cada pedra, cada esquina conta uma história de opressão, mas também de coragem e resiliência.
O Quartel do Carmo, com sua imponência militar transformada em símbolo de libertação, e o Aljube, com sua sobriedade transformada em espaço de memória e reflexão, são dois polos de uma mesma narrativa. São cicatrizes urbanas que Portugal decidiu não esconder, mas transformar em lições.
Hoje, turistas e lisboetas passam diante destes edifícios, muitos sem perceber o peso histórico que carregam. Mas para quem sabe ver, para quem se dispõe a escutar, estas paredes ainda falam. Falam de um tempo em que pensar diferente era crime, em que livros eram perigo, em que o silêncio era imposto à força.
Falam também de como, mesmo nos tempos mais sombrios, a chama da liberdade nunca se apagou completamente. De como, nas celas do Aljube ou nas ruas que levam ao Carmo, homens e mulheres comuns transformaram-se em heróis anónimos, preservando a dignidade humana quando tudo parecia perdido.
Lisboa, cidade de luz e sombra, guarda estes lugares como quem guarda cicatrizes honrosas. São marcos não apenas da história portuguesa, mas da eterna luta humana contra a tirania. Uma lembrança tangível de que regimes caem, ditadores passam, mas a busca por liberdade permanece, indomável como o rio Tejo que abraça a cidade.


















